sábado, 16 de maio de 2015

Os Mortos Devem Continuar Enterrados

Segue abaixo um conto baseado em uma aventura  de Trevas RPG que narrei há mais de 15 anos atrás descrita meu grande amigo Wagner "Loco" Pereira, que interpretou o protagonista...




Chovia bastante naquela noite, e pra variar Bruce estava novamente de vigília. Detestava noites como aquela, o fazia lembrar daquele caso sobre o cirurgião, que merda de caso, por falar nisso.
Acendeu um cigarro, deu um trago, soprou a fumaça e lembrou-se, aquele deveria ser o último maço de cigarros, mas já se fizera esta promessa tantas vezes que ate perdeu a conta. A chuva lá fora não dava trégua, nem ela , nem o frio, é, dias estranhos foram aqueles, diz em voz alta, ainda lembrando-se do cirurgião.
Em seu devaneio nem notou a aproximação de William, que bate com as pontas dos dedos no vidro do lado do carona, Bruce abre a porta:

-Esta chovendo pra diabo hoje! Diz William.
-É, vai ser uma noite longa ,e então está ai com você?
-Está sim, mas, ainda acho uma grande besteira, eles queriam um assassino, bem, nós o encontramos! Fala William sem olhar Bruce nos olhos.
-Você sabe que não acabou! Esbraveja Bruce.
Eu não estou nem ai pra isso cara, nós temos o que a mídia quer ...um culpado, é isso, ponto final Bruce, acabou!
William não ligava para a verdade, queria simplesmente acabar com aquilo e tirar seu rabo da reta, mas mesmo assim passou para Bruce todos os arquivos sobre o caso.
- Não meta-se em confusão, está bem? Não quero ser alvo de mais críticas da imprensa, está certo? Leia o que precisa e deixe tudo no distrito amanhã cedo, você entendeu Bruce?
- Sim William, eu entendi. Mas nenhum dos dois acreditaram nestas palavras, Bruce não iria deixar aquilo tudo esfriar, não enquanto ele ainda lembrava das mortes, das mutilações e das partes dos corpos desaparecidos.
William sai do carro tão rápido quanto entrou, e tenta cobrir-se com seu sobretudo para não molhar-se ainda mais, atravessa o estacionamento correndo e entra em seu carro, poucos segundos depois, ele da partida no motor e sai devagar com seu carro mas não antes de parar próximo ao carro de Bruce, como se faltasse dizer algo, mas desiste e continua .
-Este imbecil vai me meter em problemas, tenho certeza... Pensa ele ainda saindo do estacionamento do shopping onde marcaram o encontro.
Bruce abre a pasta onde estavam todos os arquivos do caso, fotos das vítimas, ou, o que sobrou delas, laudos das necrópsias, e no final dos documentos as fotos do cirurgião enforcado em seu quintal.
Tudo parecia encaixar, as provas na casa de campo do cirurgião Allan Trevor, as armas usadas para assassinar e mutilar, tudo isto encontrado na casa junto com os vídeos de ódio, loucura e a carta de suicídio, tudo perfeito, investigação e pronto, ferimentos causados por alguém que detinha imenso conhecimento em Anatomia humana, cortes literalmente cirúrgicos e um cirurgião que abandona de repente sua clínica sem motivo aparente, logo após o começo das mortes, bem, tínhamos um suspeito, uma visita a sua mansão em um bairro nobre de Perish e empregados dizendo que o patrão não aparecia já há algum tempo e provavelmente estaria em sua casa de campo perto da reserva florestal, bem, o resto é história. Resolvido, as pessoas já podiam sair de casa tranquilas, pois o monstro mutilador estava morto, ninguém se importava com as partes de corpos que não foram achadas e claro ninguém sabia que a coleta de sangue do cirurgião durante a necropsia do corpo acusou um tipo sanguíneo diferente dos seus exames enquanto vivo, mas e daí? Como dizia William, temos um nome, provas e as pessoas felizes, acabou... mas não pra Bruce. Allan Trevor era um homem centrado, sensato e muito querido por todos com quem ele conversou, algo em sua cabeça dizia: foda-se cara, as pessoas enlouquecem, elas tem sentimentos ocultos e obscuros, talvez ele fora abusado quando criança, talvez o pão caiu com o lado da manteiga pra baixo e isto despertou uma fúria cega contra tudo e todos, quem vai saber? Mas há quem diz que os pensamentos são perigosos e aliá-los à leitura barata sobre ocultismo era muito, muito perigoso, pois começava a dar idéias na cabeça dos homens, ainda mais de homens teimosos e com uma certa tendência a duvidar de tudo como Bruce.
Ele pega seu celular e disca o número de Billy, um detetive novato sedento por trabalho e este não demora a atender.
- Fala Bruce, como você está? Tudo bem?
- Tudo bem, deixe eu te falar, você ainda está disposto a ir naquela casa, cara? Eu estou indo pra lá agora, o William me autorizou a recolher alguns materiais que a perícia esqueceu por lá, e aí? Quer vir comigo? Bruce aprendeu a mentir muito bem, e vangloriava se por isso.
- Bem eu iria sair agora pra tomar umas cervejas mas tudo bem, onde encontro com você?
- Então eu passo aí e pego você em 30 minutos, pode ser? Diz Bruce
- Pode ser ... E antes de Billy concluir ,ele já havia desligado.
Bruce MCtalwer da à partida em seu carro e roda lentamente pelo pátio, não consegue deixar de pensar no caso e em seus devaneios e parte em direção a casa de Billy. É uma noite fria e chuvosa em Perish, na velha e moderna Perish, uma cidade de contrastes onde o a arquitetura medieval inglesa mistura-se ao aço cromado dos arranha-céus, como uma espécie de lembrete que o novo pode acontecer, mais o passado nunca vai te deixar e sempre foi assim nesta cidade litorânea do estado do Maine, estado este marcado por guerras, principalmente entre seus colonizadores e indígenas que habitavam esta terra.
-Você voou cara, mal tive tempo de me trocar, hoje está frio e não quero me resfriar . Falou Billy sorrindo e caminhando, ainda com seu casaco na mão, indo em direção ao Mustang azul que precisava muito de uma reforma.
- Boa noite! Responde Bruce secamente a ele e pensa: Droga nesta merda de cidade este garoto não vai sobrevir nem um dia se continuar assim tão fresco.
Eles rodam pela cidade e vão em direção a rodovia 75, que faz margem com o litoral, e Bruce repara que Billy tirava os olhos do horizonte onde se avistava o oceano atlântico.

- Sabe cara ás vezes me arrependo de ter começado a trabalhar com a polícia... Diz William Patrick Swanger, Billy, para os detetives do distrito.
- Eu não! Fala Bruce, querendo acabar com aquela conversa.

Billy olha em sua direção, como se esperasse um discurso de como “você presta um excelente trabalho, muito honesto e blábláblá...” esquece, pensa ele, e volta a observar o atlântico. 

Ao longe, sobre uma colina, eles avistam a casa de campo do cirurgião, entram pela estrada de acesso, saindo da rodovia e rodam mais alguns quilômetros. Bruce para o Mustang e desce do carro, mas quando toca o chão, sente como se tivesse pisado em um fio energizado e leva uma espécie de choque, ele olha para Billy que também havia descido e este se apóia na porta do carro aberta, para não desmaiar.
-Merda acho que minha pressão caiu, eu estou tonto e... Antes de acabar a frase, Billy joga pra fora seu jantar em um jato de vômito.
Bruce MCtalwer olha em volta e repara que tudo ali estava mudado, não totalmente como se alguém houvesse pintado a casa ou construído um novo andar, mas com certeza estava diferente, apesar de só ter se passado uma semana e meia do fim do caso. As árvores que havia ali estavam sem suas folhas que agora dançavam e rolavam no chão ao sabor do vento, as flores que faziam parte do jardim de entrada da casa estavam murchas e pareciam cabisbaixas, tudo parecia estar morto, até mesmo a casa parecia abandonada à décadas, era como se algo houvesse sugado a vida de tudo que estava ali e talvez até a dos dois que chegaram.
-Você está bem Billy?
- Sim, agora sem meu jantar; sim... Nossa, acho que ter muito dinheiro realmente faz as pessoas não se importarem com as coisas, esta propriedade está muito mal cuidada.

-Vamos dar uma olhada e sair logo daqui, não me traz boas recordações este lugar. Diz Bruce enquanto caminhava pra varanda e porta de entrada da casa.
- Me disseram que os vídeos que ele gravou são perturbadores, ele estava realmente pirado. Diz isso e começa a rir, não uma risada sincera, mas algo pra quebrar o clima.

- É... então... vamos recolher aquele material da perícia e sair logo daqui, ainda sinto meu estômago revirar, mas Bruce não lhe deu atenção, tinha o olhar fixo na porta . Ele agarra a maçaneta e gira, a porta abre sem resistência, “aqui só há morte, dor, e loucura, deixem as portas abertas talvez os fantasmas de lembranças antigas queiram dar uma volta...” Pensa isso, começa a gargalhar e sufoca as risadas com a palma da mão esquerda e nem mesmo se vira para olhar Billy, tinha certeza que este deveria estar pensando em sair correndo, entrar no carro e dirigir o mais rápido possível até o conforto de sua cama. Ele olha a sala de entrada e nada mudou, tudo ainda estava no lugar; a mobília, os quadros, não levando em conta o que foi revirado em busca de evidências, ele tenta as luzes, e sim elas estão funcionando apesar de não terem muita luminosidade. Billy se aproxima e o observa por sobre o ombro de Bruce. Ele caminha sobre o chão de madeira, entra na cozinha e nada encontra, também ele não tinha certeza do que procurar, e Billy acompanha todos seus passos bem de perto, perto ate demais.-É... você poderia olhar nos quartos e ver se encontra algo, o que acha? Diz Bruce, caminhando par escada do segundo andar. Billy pensa em dizer: “não vou caminhar sozinho neste lugar por nada nesta vida...” Mais o que ele diria no distrito, provavelmente vou ser motivos de chacota até 2037.
- Tudo bem, mas tome cuidado viu, e qualquer coisa grite! Fala Billy tentando parecer corajoso, adentrando o corredor e indo pra onde deveria ser os quartos. Bruce no andar superior andava, e a cada porta por ele avistada era aberta, uma sala de troféus, um banheiro, um quarto, e de repente algo o faz parar e entrar em um quarto, ele pensa que poderia ser um quarto especial, pois estava arrumado e tinha certeza de ter revistado e revirado este quarto tempos atrás, ele toca o interruptor, a lâmpada pisca e acende como muito pouca força, olha, vai ate os pés da cama e vira em direção à suíte e abre a porta e vê um vulto em sua frente, rápido tateia em sua cintura e acha sua arma, tira-a do coldre mais que depressa e aponta pra aparição a sua frente. Billy anda lentamente sobre o assoalho e escuta seu próprio coração bater, como se tivesse acabado de correr por alguns minutos, passa a mão em sua nuca e senti o suor frio e pegajoso. – Calma cara, vou achar os materiais e cair fora daqui, alem disto isso é só uma cena de crime nada mais, aqui um médico pirou, esquartejou varias mulheres, sumiu com varias partes dos corpos, escreveu cartas insanas e vídeos mais loucos ainda e depois passou uma corda em seu pescoço e se matou, só isso nada mais, ...Diz isso em voz alta, tenta rir, mas não vê graça na piada, mesmo porque toda aquele situação não foi engraçada, nem aquela casa, nem aquelas luzes que teimavam em piscar, não iluminar e ainda zumbir baixo como um pequeno motor de um carrinho elétrico. –Tem alguém ai, me ajude... ele vai voltar... Billy pensa que está ouvindo coisas, mas não, tem alguém em um destes quartos, apesar de ser quase um murmúrio ele tem certeza que não foi o medo lhe pregando uma peça, saca sua arma e tenta a maçaneta de uma porta, abre e vê uma mulher sentada, encostada em um canto do quarto, com os braços nus em volta das pernas manchadas de sangue, seus cabelos molhados cobrem seu rosto.
- Moça, você está bem? Diz Billy enquanto guarda sua arma novamente no coldre e vai em direção a ela, ajoelha aos seus pés e escuta a porta atrás dele se fechar em um estrondo, vira a cabeça rápido na direção da porta e volta o olhar pra mulher, que agora esta com o rosto a centímetros do seu e ele não vê seus olhos, somente buracos negros, onde eles deveriam estar, com uma expressão de ódio no rosto, ela vira a cabeça de um lado pro outro lentamente, como se o examinasse, abre a boca e parece querer dizer algo, mas dali exala um cheiro podre de morte, cheiro que Billy já sentiu outras vezes, ele se levanta e afasta-se rápido como um raio e tenta agarrar a maçaneta da porta, mas antes de tocá-la vê que as paredes assim como a porta parecem negras e se mover, e sim estão se movendo mais não a porta ou as paredes,mas uma reunião de aranhas negras e peludas que se atacam e caem no chão se espalhando pelo quarto e correndo desajeitadas em todas as direções, ele vira-se e vê a mulher erguendo-se apoiando as costas na parece e deslizando parede acima como uma serpente, ele saca sua arma e começa a apontá-la pra coisa e dispara, mas nada acontece, somente o estampido ensurdecedor. 

-Meu deus, meu deus, meu Deus... em seus braços receba meu espírito... Senti o aço gelado em sua têmpora e pressiona o gatinho.
Bruce antes de disparar, repara que é só seu reflexo no espelho do banheiro, abaixa a arma, olha seu reflexo e sorri, mas seu reflexo não,- Jesus ... ele da um salto aponta de novo a arma e atira contra o espelho, que estilhaça-se espalhando vidro em todo o banheiro, e, neste momento escuta um segundo tiro, e se lembra...

- Billy...diz em um grito e sai correndo em direção ao barulho.
Já no andar de baixo, Bruce com arma em punho, grita por Billy, chutando cada porta que encontra e apontando a arma pra dentro, quando, encontra uma porta aberta e o corpo de Billy ali já sem vida, sua cabeça estourada e os olhos abertos em uma expressão de surpresa, e a arma ainda em sua mão.
- Droga, que merda, desgraçado, o que você fez seu idiota... Esbraveja Bruce pro corpo imóvel ali no chão, olha em volta e não vê nada, senta no chão ao lado do corpo e não sabe o que fazer, quando ele escuta algo vindo do subsolo da casa, deita e coloca o ouvido no chão de madeira e tem certeza que o tilindar de peças de metal vem la de baixo, levanta-se devagar com a arma em punho e começa a sair do quarto, lembrando do esconderijo de furacões no porão da casa. Vai até a cozinha e na despensa encontra o alçapão que leva ate ao subterrâneo, abre devagar e começa a descer as escadas, passo a passo e senti uma espécie de eletricidade percorrer seu corpo e fazer seus pelos eriçarem a cada vez que se aproxima mais do fim da escada, pisa no chão de concreto e vê uma luz fraca no fim de um corredor que se abre no esconderijo, caminha lentamente, arma em punho, sons de metal.
- Esses imbecis não desistem, vou ter que adiantar meu trabalho, acalme-se minha amada vou trazer você de volta... 

-Uma figura vestida com um jaleco branco imundo, que de costas fala em voz alta enquanto guarda alguns instrumentos cirúrgicos em uma bolsa de couro velha, que estava em cima de uma mesa de madeira, onde algo comprido repousava sob um lençol.

- Fique parado, filho da puta, o que faz aqui, e o que fez com meu amigo, vire- se devagar e com suas mãos pra cima... anda porra! Grita Bruce, com sua arma apontada pra figura, que se vira devagar e cabisbaixo, e Bruce não acredita no que vê, é Allan Trevor, mais velho talvez, mas, sim é ele.

- O que foi policial não me reconhece? Ele gargalha, e continua: Você me viu morto não é, me viu sendo enterrado e era assim que deveria ser, os mortos deveriam continuar enterrados não é mesmo? Diz isto ainda de cabeça baixa e sorrindo.

- Não sei que você fez desgraçado, mas sabia que ali naquele caixão não era você, afaste-se da mesa e caminhe ate aqui com as mãos levantadas, não dê uma de esperto, minha Glock esta carregada e não costumo errar um tiro a esta distância!
O medico caminha devagar em direção a Bruce e frente a frente com ele, ergue a cabeça o olha nos olhos e vira-se pondo as mãos na nunca, Bruce agarra sua mão direita com força, a torce rapidamente com sua mão esquerda, guarda a arma no coldre e tira sua algema que carrega em seu cinto, algema-o, uma mão de cada vez, vira-o de frente, o olha nos olhos e desfere um soco em seu rosto, o medico cai sentado contra a parede, sua boca e nariz sangram, ele olha pra Bruce, abaixa a cabeça e sorri.

-Lunático do cacete, vão te fazer mulher na cadeia. Diz Bruce em pé diante dele e pega seu celular, mas não antes de cuspir em Trevor, mais antes que percorresse sua agenda, ele ouve o medico pronunciar varias palavras sem conexão e um barulho em suas costas, ele se vira e vê algo se erguendo enquanto o lençol desliza suavemente, então Bruce vê a coisa mulher, uma espécie de retalho de carne humana costurado com barbante, a coisa olha pro lençol sobre seus pés e vira a cabeça em direção a Bruce e os olhos sem expressão da coisa o encaram, começam a brilhar em um tom amarelo doentio, e dentro de sua cabeça ele ouve: Olhe pra mim, venha pra mim ...

-Bruce tem um devaneio onde imagina que assim teve ser o canto das sereias, que faziam homens abraçarem de bom grado a morte em mares furioso, então tudo parece desabar diante dele, senti sua cabeça girar, suas pernas ficam sem forças, e ele ainda tem tempo de ouvir sua arma cair no chão de concreto.

- Hei acorde, hei seu merda acorde... Grita William enquanto o sacode. Bruce abre os olhos e se vê dentro de um carro, olha ao redor, vê uma casa velha e ouve: O que aconteceu com Billy, anda fala...

- Billy... Billy, que Billy. Diz Bruce como se tentando responder pra si mesmo.

- Para de palhaçada e me responde porra, me responde logo Bruce !

Então ele olha bem no rosto de William e diz:

-Bruce, quem é Bruce...?

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